"A neurose é o maior mal do mundo. Consiste basicamente na incapacidade de amar. O crime, a violência, a maldade, o desrespeito, o ciúme, o sentimento de posse, a invasão, a tortura mental ou física das pessoas, são sintomas dessa patologia genérica, universal, que atinge indivíduos de todas as classes sociais. O fato da doença te...r um nome, origem e sintomas conhecidos, não impediu a Medicina de se mostrar impotente quanto à sua cura até o momento, talvez por ser uma doença puramente espiritual. A neurose se revelou até agora incurável, progressiva e fatal, no assassinato ou no suicídio (ou em ambos). A fraternidade NA (Neuróticos Anônimos), nascida nos Estados Unidos há décadas, inspirada no programa de AA (Alcoólicos Anônimos) atribui no seu livro vermelho, ao "egoísmo" ( ..."que impede a capacidade de amar") a origem da doença, e a considera "curável "pelo desenvolvimento programado da capacidade de amar. Entretanto, a neurose se mostrou bem mais difícil de deter com as reuniões de depoimentos e o programa dos Doze Passos (adaptados de AA) do que o próprio alcoolismo. Talvez a chave para o entendimento da dificuldade esteja numa frase corrente nos depoimentos de AA: "Todo alcoólico é neurótico, mas nem todo neurótico é alcoólico". Esse fato indiscutível, na verdade se revela uma desvantagem para os poucos neuróticos que procuram a "cura", pois o doente incurável do alcoolismo, quando este é detido pela abstinência total, parece perder 50% de sua neurose junto com a retirada do fator álcool. Já o neurótico não alcoólico é 100% neurótico a seco (digamos), e assim permanece. Podemos dizer que a neurose é a tragédia dos tempos modernos, embora possamos detectá-la difusa nas tragédias gregas (poderoso instrumento de catarse das massas) e em alguns personagens poderosos da antigüidade.
Uma curiosidade: um membro de AA entrevistado por mim disse a seguinte frase sugestiva e até humorística: "AA e NA é tudo índio, mas eles são mais ferozes que nós quando estamos com a doença detida. Assista a uma reunião deles: nós somos guaranis e eles são aymorés... Eles são antropófagos! "
Tudo leva a crer que as reuniões de Neuróticos Anônimos não estão prosperando, e a sigla NA é reinvindicada pela irmandade dos Narcóticos Anônimos, bem mais concorrida, dado que os droga-adictos proliferam de uma maneira alarmante. A propósito, hoje em dia é dificil encontrar o chamado "alcoólatra puro", adicto somente do álcool, tão abundante em décadas passadas. Agora é mais comum o "cruzado", isto é, o dependente de álcool e drogas ao mesmo tempo, que ocupa as salas de AA, tornado-as mais tumultuadas e, por vezes, ferozes.
Voltando ao tema específico da neurose como doença espiritual, lembramos que é muito comum dizer-se que a neurose é uma doença inata ou gerada na infância pela educação desfuncional e o meio social em todas as pessoas, mas em diferentes graus, mais graves ou menos graves para o resto da vida. Seríamos todos, segundo essa teoria, neuróticos em grau maior ou menor e isso determinaria nossa conduta e nossa trajetória com maior ou menor equilíbrio, sucesso e mesmo felicidade ao longo da vida. O certo é que as características do comportamento neurótico são desconcertantes e acima de tudo desgastantes para o convívio, produzindo imediato choque e repulsa naqueles que com o neurótico se deparam ou convivem no dia a dia. Na verdade poucas pessoas conseguem conviver com o neurótico sem desenvolver uma neurose complementar que podemos chamar de co-dependência, tal como ocorre com os que convivem com seus parentes ou parceiros álcoólicos e/ou drogados.
Mas quais são as características comuns aos neuróticos segundo esta perspectiva?
Nada boas na verdade, e geradoras de grandes sofrimentos a começar pelos do próprio neurótico mas se estendendo aos seus familiares, cônjuges, filhos e a própria sociedade, que frequentemente é vitima das atitudes extremas do doente emocional ou espiritual, como queiram. Podemos enumerar essas características: orgulho extremo convivendo paradoxalmente com baixa auto-estima; imaturidade, irritabilidade, intransigência, intolerância, hostilidade, preconceito, ciúmes exacerbado, ressentimento, revolta, amargura, sentimento de posse e de perseguição, exasperação, violência verbal e freqüentemente também física. Mas atenção: no indivíduo neurótico estamos lidando com todos estes defeitos de caráter, ao mesmo tempo! O mais curioso é que o neuróticos são quase sempre muito inteligentes, sem que isso, claro, amenise aquelas características negativas. Eu costumo dizer que a inteligência por si só não chega a ser uma virtude e é preciso que se alie a pelo menos uma para produzir uma pessoa agradável e bem-quista...
E o que são as virtudes? Todos sabem: são as características do caráter que derivam do amor. Com o passar do tempo e o desenvolvimento da doença , o individuo neurótico deixa de desenvolver qualquer virtude: ele não é sábio nem bom, nem otimista, nem profundo, nem generoso, nem desprendido, nem tolerante, nem altruista, nem cândido, nem terno, nem ingênuo, nem pacífico, nem conciliador, nada... Uma única destas virtudes aliada à sua inteligência o salvaria, por assim dizer. Podemos então concluir que neurose é falta daquela outra inteligência, a emocional, segundo um critério recente? Sim podemos. Afinal a expressão "inteligência emocional" é interessante e fundamentada. Não deixa de ser um avanço.
Podemos observar que no neurótico a ausência de virtudes que se aliem à inteligência produz um monstro psicológico. Uma curiosidade: uma virtude costuma restar no neurótico e esta é, surpreendentemente, a honestidade, não intelectual, mas financeira. Na ausência das outras virtudes e somente ela junto à inteligência temos como resultado, freqüentemente, um fanático moralista.
Um erro de visão muito comum e quase popular, é o de que os artistas são quase sempre neuróticos e que devem a isso sua criatividade. Compartilho com entusiasmo a visão do Dr Otto Rank , psicanalista da escola de Viena, de que o Artista é justamente o contrário do neurótico "autocrítico" (assim se expressa ele) cujo perfeccionismo autoexigente chega a ser paralizante e portanto estéril. O artista fecundo, criativo, não somente se aceita plenamente às raias do auto-enaltecimento e celebração, como sobe no palco de si mesmo e espera consagração e aplausos.
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